A HQ Supergirl Woman of Tomorrow de Tom King e Bilquis Evely é a base do filme com Milly Alcock que estreia em 26 de junho de 2026 — e se você quiser entender por que esse filme pode ser algo genuinamente diferente, precisa entender a história primeiro.

No dia do seu aniversário de 21 anos, Kara Zor-El está bêbada num planeta de sol vermelho — sem poderes, sozinha, sem ninguém que a conheça. Longe da Terra, longe do Superman, longe de qualquer expectativa que o universo DC depositou nela ao longo de décadas. É assim que começa.

A premissa que quebra tudo que você sabe sobre Supergirl

Kara não é a Supergirl otimista que você conhece dos quadrinhos dos anos 60 ou das séries de TV. Ela é mais velha, mais cansada, mais humana do que qualquer versão anterior. Enquanto Kal-El cresceu na Terra e foi moldado pelos valores humanos desde bebê, Kara viveu na Krypton. Ela se lembra do planeta que morreu. Ela viu. Ela perdeu.

Essa diferença fundamental é o que Tom King explora: Clark Kent é um humano com poderes. Kara Zor-El é uma kryptoniana que aprendeu a viver entre humanos. São duas coisas muito diferentes.

No planeta do sol vermelho, sem poderes, Kara encontra Ruthye — uma adolescente que quer matar Krem, o homem responsável pelo assassinato do pai dela. Ruthye contrata Kara como escolta. E começa uma jornada pelo espaço que é parte faroeste, parte tragédia grega, parte carta de amor para o gênero de super-heróis.

A referência declarada de Tom King é True Grit — o romance de Charles Portis que virou filme com John Wayne e depois com Jeff Bridges. A estrutura é a mesma: uma jovem determinada a fazer justiça, um contratado moral e pragmático, uma jornada que vai cobrar um preço alto dos dois.

O narrador que mente em Supergirl Woman of Tomorrow

O elemento mais inteligente da HQ Supergirl Woman of Tomorrow é a narração de Ruthye. Toda a história é contada por ela, décadas depois dos eventos, através de um livro que ela escreveu. E em determinado momento ela afirma que Supergirl matou Krem.

Spoiler: Supergirl não matou Krem. Ela o mandou para a Zona Fantasma — uma prisão dimensional — em vez de executá-lo. Ruthye mentiu no livro. Por quê? Para se proteger dos Brigands, o clã de mercenários ao qual Krem pertencia. Se o livro dissesse que Krem ainda está vivo, ela seria alvo. Se o livro diz que Supergirl o matou, a ameaça some.

Isso muda tudo sobre como você lê a HQ. Ruthye não é só a narradora — ela é uma narradora não confiável, e isso é deliberado. King está dizendo que a história que nos contam sobre heróis raramente é a história real.

A cena que divide a internet

Comet, o Super-Cavalo de Kara, é assassinado pelos Brigands durante a jornada. Se você não sabe quem é o Comet, prepare-se: é um personagem que existe nos quadrinhos desde 1962, geralmente tratado como curiosidade cômica do universo DC. King o usa como gatilho emocional real. A morte de Comet é o ponto de colapso de Kara — o momento em que ela para de conter o que sente.

E então vem o finale. Krem sai da Zona Fantasma após centenas de anos de prisão — arrependido, destruído pelo tempo. Ruthye, agora uma mulher idosa, está lá esperando. Ela bate nele com a bengala e vai embora. Supergirl não interfere.

A frase final de Ruthye sobre Kara resume tudo: “Acredito que ela viveu sua vida em dor. Mas se você a perguntasse, ela diria que essa afirmação é absurda.”

É o tipo de encerramento que não resolve nada e resolve tudo ao mesmo tempo.

O filme — o que esperar

Craig Gillespie dirige. Milly Alcock é Kara. Jason Momoa é Lobo — personagem que aparece brevemente na HQ, com visual fiel às origens nos quadrinhos.

A origem do projeto tem uma história curiosa: Tom King originalmente queria fazer uma HQ de Lobo, mas percebeu que a história só funcionaria se Supergirl fosse a protagonista com capacidade de mentoria. Lobo saiu do centro da narrativa. A Supergirl que King criou é uma personagem tão forte que expulsou o outro protagonista da própria ideia original.

Aliás, o universo DC está em plena reformulação. Dá uma olhada também em Supergirl no Brasil, outra HQ recente que coloca a Kara em contextos completamente diferentes do habitual. E se quiser entender como os heróis da DC se posicionam em termos de poder, o artigo sobre Superman vs Homelander tem uma análise interessante de até onde vai a força do Homem de Aço.

O filme Supergirl: Woman of Tomorrow estreia em 26 de junho de 2026. A HQ tem 8 edições e pode ser lida em dois ou três dias. Vale muito a pena chegar no cinema já tendo vivido essa história.