Antes do filme, havia os quadrinhos

Com o anúncio do filme animado de ThunderCats pela Warner Bros., uma nova geração vai descobrir Lion-O e a Espada dos Ômens pela primeira vez. Mas para os fãs de longa data — e para quem quer chegar no cinema sabendo mais do que a maioria — existe um universo expandido em quadrinhos que poucos conhecem, e que inclusive continua sendo publicado agora, em 2026. Ao longo de quatro décadas, ThunderCats passou por pelo menos quatro fases distintas nos quadrinhos, cada uma refletindo o gosto e as convenções editoriais da própria época em que foi produzida.

Essa é a história dos ThunderCats nos quadrinhos. E ela começa muito antes do que você imagina — e não parou.

Os primeiros quadrinhos: Marvel e Star Comics (1985–1988)

Quando o desenho animado original estreou em 1985, a Marvel Comics não perdeu tempo. Através do selo Star Comics — voltado para licenças infantis, criado justamente para publicar adaptações de desenhos animados populares da época sem misturar com o catálogo principal de super-heróis da editora — a Marvel publicou 24 edições de ThunderCats entre 1985 e 1988. As histórias seguiam o tom da série animada: aventuras de Third Earth, batalhas contra Mumm-Ra e o desenvolvimento dos personagens secundários que o cartoon não tinha tempo de explorar em episódios de 22 minutos.

Não eram quadrinhos de autor — eram produtos licenciados do seu tempo, feitos para acompanhar o calendário de brinquedos e a grade de sábado de manhã. Mas para quem cresceu na época, eram a única forma de ter mais ThunderCats além dos episódios semanais, numa era sem internet, sem reprises constantes e sem streaming para revisitar a série sempre que quisesse.

DC Comics e a era britânica (1987–1988)

Simultaneamente, a DC Comics publicou sua própria série de ThunderCats no mercado britânico, com histórias originais escritas especificamente para aquele público — uma prática comum na época, em que editoras americanas licenciavam desenhos animados populares para publicações locais na Europa com equipes criativas e calendários totalmente independentes da versão americana. Essa versão britânica tinha um tom ligeiramente diferente — mais sombrio em alguns momentos, refletindo uma tradição britânica de quadrinhos infantis que historicamente não tinha medo de temas mais pesados — e é raramente mencionada nas discussões sobre o legado da franquia, mesmo entre fãs de longa data que conhecem bem a era Marvel.

WildStorm e o reboot dos anos 2000

A fase mais interessante para fãs de quadrinhos na virada do século chegou nos anos 2000, quando a WildStorm — subsidiária da DC conhecida por publicar títulos com tom mais adulto e visual mais detalhado, como Astro City e The Authority — publicou uma série de minisséries e one-shots de ThunderCats entre 2002 e 2003. Aqui, os quadrinhos ganharam um tratamento mais maduro: arte mais detalhada, tramas com consequências reais e uma abordagem que respeitava os fãs adultos que tinham crescido com o desenho quinze anos antes.

Essa fase incluiu crossovers com outros IPs da WildStorm e explorou a mitologia de Third Earth com mais profundidade do que qualquer adaptação anterior, tratando conflitos políticos entre as diferentes facções do planeta com um peso que a série animada original, limitada pelas normas de conteúdo infantil da época, nunca pôde explorar totalmente. Durante muito tempo, essa foi considerada a fase mais recomendada para quem queria entrar nos quadrinhos de ThunderCats — mas ela não é mais a mais recente, nem a mais fácil de encontrar.

A fase atual: ThunderCats nunca parou de sair nas bancas

Aqui está a parte que a maioria dos fãs perdeu: ThunderCats está sendo publicado em quadrinhos, sem interrupção, desde fevereiro de 2024 — e a série segue ativa até hoje. No fim de 2023, a Dynamite Entertainment anunciou que tinha adquirido a licença da propriedade e lançaria uma nova série regular em parceria direta com a Warner Bros., como parte de um acordo maior que também trouxe de volta Os Flintstones, As Meninas Superpoderosas, Space Ghost, Jonny Quest, O Mágico de Oz e Ursos sem Curso aos quadrinhos.

ThunderCats #1 chegou às bancas em 7 de fevereiro de 2024, com roteiro de Declan Shalvey e arte de Drew Moss — dupla que segue no comando da série até hoje. A proposta desse reinício foi deliberadamente conservadora: recontar as origens da fuga de Thundera e a chegada à Terceira Terra sem reinventar demais os personagens clássicos, facilitando a entrada de leitores que nunca tinham lido nada da franquia antes. A crítica especializada brasileira descreveu esse primeiro volume como “um reinício seguro” — competente, fiel ao visual das animações, mas sem grandes riscos narrativos ou visuais, com a exceção notável de Snarf, redesenhado para se comunicar apenas telepaticamente com Lion-O.

A série avançou rápido: em março de 2026, ThunderCats já estava no marco da edição de número 25, com uma trama que finalmente revela o segredo há muito escondido sobre a origem de Thundera — uma reviravolta que promete reconfigurar a relação entre Lion-O e a própria linhagem real que ele herdou. Também existe uma spin-off, ThunderCats: Cheetara, lançada em abril de 2024 com roteiro de Soo Lee e arte de Domenico Carbone, que volta no tempo até a época em que Thundera ainda era o lar da personagem, antes da destruição do planeta.

O mesmo acordo entre Dynamite e Warner Bros. também trouxe de volta SilverHawks — outra franquia clássica dos anos 80 ambientada no mesmo estilo de universo — com roteiro de Ed Brisson e arte de George Kambadais, além de um evento de crossover reunindo as duas franquias. Para quem gosta de mergulhar fundo, também existe um especial dedicado a Panthro, escrito por Brisson com arte de Dave Acosta.

Onde ler cada fase hoje

Para quem quer mergulhar de verdade nessa linha do tempo, vale saber onde procurar. As edições da Marvel/Star Comics dos anos 80 e a fase britânica da DC são as mais raras hoje — geralmente aparecem em sites de venda de quadrinhos usados ou em coleções digitalizadas por fãs, já que nunca receberam reedição oficial recente no Brasil. A fase WildStorm dos anos 2000 tem circulação um pouco maior entre colecionadores, mas também não está disponível oficialmente em plataformas digitais brasileiras.

Já a fase atual da Dynamite é a mais acessível de longe: por ser recente e ainda em publicação ativa, os números avulsos e coletâneas em capa dura (“trade paperbacks”) estão disponíveis para compra internacional em formato físico e digital através da própria Dynamite e de lojas especializadas, mesmo sem edição nacional confirmada até o momento. Se você só puder acompanhar uma dessas eras antes do filme animado estrear, a fase da Dynamite é a mais fácil de conseguir — e também a mais conectada ao que provavelmente vai inspirar (ou não) a nova produção.

Por que o filme animado pode abrir esse universo de novo

Cada vez que uma franquia clássica ganha uma nova adaptação, a demanda por material original dos quadrinhos sobe. Foi assim com Sandman na Netflix, foi assim com Invencível no Prime Video. Com o filme animado de ThunderCats já confirmado — mesmo sem data definida — e uma série de quadrinhos ativa e em pleno andamento, o terreno já está preparado: diferente de outras franquias que precisam começar do zero quando o interesse do público reacende, ThunderCats já tem uma continuidade em papel rodando havia mais de dois anos quando o anúncio do filme saiu.

Isso também levanta uma pergunta interessante para quem acompanha os bastidores: será que a equipe do filme vai se inspirar na versão atual da Dynamite, ou vai construir uma continuidade totalmente independente, como costuma acontecer quando cinema e quadrinhos pertencem a divisões diferentes da mesma empresa? Historicamente, adaptações cinematográficas de franquias com quadrinhos em andamento tendem a seguir caminhos próprios — casos como Invencível e The Boys mostram que jogo e quadrinho podem divergir bastante sem prejudicar nenhum dos dois formatos, desde que cada um entregue uma experiência completa por conta própria. Por enquanto, não há qualquer indicação oficial de que a Warner vai amarrar as duas frentes.

O que fica claro, de qualquer forma, é que ThunderCats nunca esteve tão presente na cultura pop quanto agora: filme animado confirmado, quadrinhos em publicação contínua, e uma base de fãs que atravessou quatro décadas sem perder o interesse pela Terceira Terra e pela eterna disputa contra Mumm-Ra.

Por enquanto, o material dos anos 80, dos anos 2000 e da fase atual da Dynamite já está disponível para quem quiser mergulhar. E chegar no cinema sabendo essa história completa é uma vantagem que poucos vão ter.

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