Contexto de arquivo, revisado em 18 de outubro de 2026: este artigo discutia a abertura de Supergirl e relatos de bastidores, não o resultado final de sua carreira comercial. A reportagem original do The Hollywood Reporter foi localizada, mas seu texto integral exige acesso de assinatura. As estimativas e relatos abaixo permanecem pendentes de revalidação integral, sem certificação nesta revisão.

Os números: um desastre nos mínimos detalhes

Supergirl estreou nos cinemas em 26 de junho de 2026 e arrecadou apenas 37 a 38 milhões de dólares no fim de semana de abertura nos Estados Unidos, com um total global na casa dos 60 milhões. Para um orçamento estimado entre 170 e 186 milhões de dólares — sem contar marketing —, esses números são um problema sério. Analistas apontam que o filme precisaria se aproximar dos 300 milhões globais só para não dar prejuízo, e a essa altura, isso parece cada vez mais distante.

O CinemaScore, nota atribuída pelo público que efetivamente foi às salas no dia da estreia, ficou em B-. Não é uma nota catastrófica, mas está bem abaixo do que o gênero costuma entregar quando funciona. Para efeito de comparação, a versão de 1984 da personagem, estrelada por Helen Slater, foi ainda pior nas bilheterias — recuperou pouco mais de 14 milhões de um orçamento de 35 milhões —, mas isso é pouco consolo quando se está tentando construir um universo compartilhado bilionário quase 40 anos depois.

DC Studios sabia que o filme estava em apuros meses antes

A parte mais reveladora de toda essa história não é a bilheteria em si, mas o que aconteceu nos bastidores muito antes da estreia. Segundo reportagem do The Hollywood Reporter, a DC Studios já tinha sérias dúvidas sobre Supergirl meses antes do lançamento. Em março, o estúdio chegou a colocar em confronto direto dois cortes diferentes do filme: um assinado pelo diretor Craig Gillespie (de “Eu, Tonya” e “Cruella”) e outro produzido internamente por James Gunn e Peter Safran, com edição de Fred Raskin, colaborador frequente de Gunn.

Os resultados desse teste comparativo foram desanimadores. As pontuações de audiência para as primeiras exibições de teste ficaram na casa dos 60 pontos (de 100), com uma fonte mencionando um pico de 70. Quando o corte do próprio estúdio foi testado contra a versão de Gillespie — 11 minutos mais longa —, a diferença entre as duas versões foi de apenas dois pontos. A DC Studios decidiu seguir com o próprio corte para o lançamento nos cinemas, mas o processo deixou cicatrizes: fontes descrevem as diferenças criativas entre Gunn e Gillespie como um caso claro de “não estarem alinhados criativamente”, nas palavras “educadas” usadas para descrever o conflito.

Hipóteses sobre a recepção, sem causa demonstrada

Os dados demográficos da abertura ajudam a entender o problema de fundo. Do público que foi ao cinema no fim de semana de estreia, 59% era masculino e 65% tinha mais de 25 anos — exatamente o oposto do público-alvo natural de um filme de Supergirl, que deveria atrair principalmente mulheres mais jovens, incluindo a Geração Z. Em outras palavras: o público que o filme mais precisava conquistar simplesmente não apareceu.

Analistas apontam pelo menos cinco fatores combinados para esse resultado: o DCU ainda não está consolidado o suficiente para arriscar em personagens de segundo escalão; o orçamento era grande demais para uma aposta dessas; a fadiga do público com filmes de super-herói já é real, mesmo com ajuste de expectativas; o elenco não trouxe nenhum nome de peso adicional para atrair público casual; e o calendário de estreia colocou Supergirl bem no meio do segundo fim de semana de Toy Story 5 e da chegada de Minions & Monstros, dividindo espaço justamente com o público família num período de baixa concorrência adulta.

Vale lembrar que a atriz Milly Alcock, que interpreta Kara Zor-El, não deve sofrer as consequências do fracasso: ela já está confirmada no próximo capítulo do DCU dirigido por Gunn, então o problema parece estar mais na concepção do projeto do que na atriz escolhida. As críticas ao filme em si também apontaram para questões específicas de execução: reviews mistas destacaram uma narrativa que tenta imitar o estilo pessoal de James Gunn sem ter o mesmo domínio dele sobre o tom, escolhas estranhas de trilha sonora, e um vilão pouco memorável — problemas de roteiro e direção que se somam aos fatores externos de mercado.

O que isso significa para o futuro do DCU

Peter Safran já saiu em defesa pública do projeto. Em declaração ao New York Times, ele afirmou que Supergirl não atingiu as expectativas de bilheteria, mas que é apenas um componente de uma estratégia de longo prazo mais ampla em que o estúdio segue confiante. O problema é que essa “estratégia de longo prazo” ainda parece bastante desconexa aos olhos de quem acompanha de fora: fora Superman, o próximo grande capítulo é “Man of Tomorrow” (não exatamente uma sequência direta, segundo o próprio Gunn), e o resto do slate — Clayface, Dupla Dinâmica, projetos girando em torno de Bane e Exterminador — está mais concentrado no universo do Batman do que na formação de um DCU coeso.

Isso é especialmente irônico porque, se você quer entender por que essa versão de Kara Zor-El — baseada na aclamada HQ “Woman of Tomorrow” de Tom King e Bilquis Evely — prometia ser diferente de tudo que a DC já tinha feito, a fonte é ótima. Já cobrimos a HQ completa que serviu de base para o filme e também a versão mais sombria e adulta da personagem que o filme prometia entregar — e é justamente esse contraste entre a ambição do material de origem e o resultado nas bilheterias que torna esse fracasso tão notável.

Há ainda uma pergunta em aberto que pode pesar mais do que qualquer número de bilheteria: com a fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery em andamento, alguns agentes do setor já questionam abertamente se James Gunn sobrevive à reorganização que deve vir depois do negócio ser aprovado. Um estúdio de super-heróis mudando de mãos logo depois do primeiro grande tropeço é sempre uma combinação perigosa — e é exatamente onde a DC Studios se encontra agora.

Um padrão que a DC já viveu antes

Quem acompanha o histórico recente da DC vai reconhecer esse roteiro. Zack Snyder relançou o universo compartilhado com “Homem de Aço” em 2013, recebido com relativo entusiasmo — só para ver a sequência direta, “Batman v Superman: A Origem da Justiça” (2016), ser esmagada pela crítica e sofrer uma queda catastrófica de público já no segundo fim de semana. A diferença é que, dessa vez, o tropeço não vem em meio a uma negociação bilionária de fusão entre estúdios; ele vem durante uma. E isso muda o cálculo de risco para todo mundo envolvido.

Fontes ligadas ao estúdio, falando sob anonimato à imprensa americana, chegaram a resumir o problema de forma direta: o que existe hoje não é exatamente uma marca consolidada, é um acordo de produção entre Gunn e Safran. Anunciar um “universo compartilhado” cria uma expectativa de coesão — e até agora, o que a DC efetivamente entregou foi um filme do Superman muito bem recebido, seguido por uma aposta arriscada que não conectou. É pouco material para sustentar a tese de universo compartilhado que foi vendida ao público e à imprensa desde o primeiro anúncio.

Calendário precisa de atualização própria

As chamadas para agosto e para outros lançamentos no ano pertenciam ao contexto original e foram retiradas. Elas não comprovam a situação de uma produção em outubro nem a causa do desempenho de outra.

E agora?

Supergirl não afunda o DCU sozinho — mas expõe rachaduras que já estavam lá. Um público que ainda não decidiu se confia no universo compartilhado, um calendário de lançamentos que ainda parece mais uma coleção de apostas do que um plano coeso, e um gênero inteiro passando por um momento de fadiga real. Vamos continuar acompanhando os próximos passos do DCU de perto — inclusive o quanto esse tropeço vai (ou não) mudar os planos anunciados para os próximos anos.